
De acordo com Lynne Moritz, professora da Escola de Medicina da Universidade de St. Louis e presidente da Associação Psicanalítica Americana, Freud 'nos ajuda a encontrar significados e motivações profundos'. Significados profundos são exatamente o que algumas pessoas querem extrair da vida. A possibilidade de intervir diretamente no cérebro por meio de remédios promete tornar a psicanálise dispensável. Mas pacientes respondem de forma diferente e, para alguns, a combinação de remédio e terapia parece funcionar melhor. Moritz afirma que em alguns casos, como adolescentes com distúrbio de personalidade limítrofe, a análise ainda é o tratamento a ser escolhido. Quanto ao próprio Freud, ele mesmo passou por uma curta fase em que defendeu o uso de drogas. Infelizmente, a droga defendida era a cocaína.
Nos anos 50, a análise era um símbolo de status e sinal de sofisticação, papel exercido hoje pela cirurgia plástica. Mas ainda é um luxo valorizado para aqueles com tempo e dinheiro para corresponder à ordem do Oráculo de Delfos: 'Conhece-te a ti mesmo'. É o caso de uma paciente do grupo de Moritz, casada, de 40 e poucos anos, mulher de classe média alta e bem-educada, com uma vida tranqüila e satisfatória. 'Decidi que tenho uma vida boa, mas poderia ser melhor', diz ela. No trabalho, ela se mostrava muito ansiosa por agradar, assumindo mais do que podia dar conta. Com a família, sentia necessidade de reprimir o lado brincalhão e o senso de humor. Muita gente não acharia necessário dedicar quatro horas por semana durante quatro anos para resolver esses problemas. Mas, para ela, vale a pena. 'Faz com que você examine a sua vida, entenda de onde vêm suas atitudes e crenças', diz. 'Estou muito mais feliz agora. É preciso confrontar as partes de você mesmo que são dolorosas ou vergonhosas e difíceis de encarar. A doutora Moritz faz perguntas que me levam a mergulhar mais fundo em mim mesma.'
Freud mesmo passou por uma curta fase em que defendeu o uso de drogas. Infelizmente, a droga defendida era a cocaína
Isso, é claro, é a essência da técnica de Freud, um homem intoxicado pela viagem da descoberta interior. Vê-se isso em seu livro Psicopatologia da Vida Cotidiana, quando ele discute um encontro com um jovem que não consegue se lembrar da palavra latina aliquis (alguém). Freud usa a técnica da livre associação, sua marca registrada (diga-me a primeira coisa que vier a sua cabeça), para revelar uma ligação com 'líquido', daí a 'sangue' e à revelação de que o jovem estava preocupado com uma mulher com quem tinha mantido relações, pois ela estava com a menstruação atrasada. Que proeza! Será que diminui nossa admiração a revelação do historiador Peter Swales, de que provavelmente o lapso de memória foi do próprio Freud, e que a mulher era Minna Bernays, irmã da mulher de Freud? Bem, não para Lear. Sua reação é: 'Não me importo nem um pouco. É de imaginar que alguém na posição de Freud tenha mudado a História dessa forma, mas não é muito importante para nossa admiração por seu trabalho'.
Se Einstein tivesse um caso com sua cunhada, isso não mudaria o que achamos sobre a velocidade da luz. Mas é Freud! Seus próprios pensamentos e emoções eram precisamente a matéria-prima de onde ele derivava muitas de suas teorias. Ele fascina mesmo aqueles que construíram sua reputação denunciando-o, como Frederick Crews, da Universidade da Califórnia em Berkeley. Explicando o interesse duradouro por Freud, ele afirma: 'Humanistas acadêmicos acham que, ao entrar no mundo freudiano de símbolos interligados e de afirmações causais fáceis, nunca vão sentir falta de coisas aparentemente perspicazes para dizer em seus livros e ensaios'. Como se isso fosse ruim! Não precisamos todos de vez em quando de uma desculpa para parecer inteligentes?
'Fazemos referência a Freud quando chamamos alguém de 'passivo-agressivo'', diz Kramer. 'Não sei como alguém expressava essa idéia há cem anos.' No entanto, nem todo mundo se convence com esse argumento. 'Shakespeare conseguiu dizer muitíssimo sobre a natureza humana sem o vocabulário fornecido pela psicanálise', afirma Patrícia Churchland, da Universidade da Califórnia, San Diego, uma importante filósofa da consciência. Ela diz que a linguagem da análise está sendo substituída na cultura popular pelo jargão da neurociência. As pessoas, hoje, falam sobre 'liberar endorfinas'.
Nas esferas da política, do esporte e de negócios, Freud é o que menos importa. Quando o presidente George W. Bush disse que não 'iria para o divã' por suas decisões sobre o Iraque, Jerry Sulkowicz, professor de Psiquiatria da Escola de Medicina da Universidade de Nova York, escreveu ao The New York Times protestando contra a sugestão de que 'não entender a si mesmo é motivo de orgulho'. Sulkowicz conhece bem a atitude. Ele é consultor de CEOs e luta diariamente para enfiar alguma introspecção na cabeça de seus clientes. 'Há tanta ênfase em execução e ação no mundo dos negócios que tento explicar que ação e reflexão não são mutuamente excludentes', diz. As percepções de Freud sobre o irracional e o inconsciente têm utilidade corporativa. Até executivos de alto escalão podem trazer problemas de transferência para dentro do escritório, procurando no chefe a aprovação que um dia desejaram de seus pais. Os escritos de Freud sobre dinâmica de grupo e rivalidade entre irmãos podem se aplicar bem a um CEO que pense, acrescenta Sulkowicz.
Na sombra, a ponta do charuto agita-se para cima e para baixo. 'Americanos!' Ele parece estar pensando. 'Uma multidão ávida por dinheiro, eles fazem com que eu tema pelo futuro da civilização. Deveria ter dito isso a eles quando pude.'
30% dos americanos crêem que os problemas psicológicos têm raízes na infância
Freud escreveu pouco sobre os Estados Unidos, mas sua atitude sobre eles fica clara em umas poucas frases no clássico O Mal-Estar na Civilização, publicado em 1930. O livro é uma meditação psicológica sobre o contrato social: a troca do instinto humano natural de agressão e dominação sexual pela segurança e pelo conforto da sociedade civilizada. Na visão de Freud, não é uma troca fácil. Os instintos são poderosos e reprimi-los cria conflitos inconscientes - o que Lear descreve como a 'idéia central' do pensamento freudiano.
Essa é a fonte da doença que não podemos nomear e jamais será realmente curada, porque está cravada na condição humana. Não é por acaso, diz Lear, que a reputação de Freud esteve tão em baixa nos anos 1990, auge do otimismo do pós-Guerra Fria que fez O Fim da História, de Francis Fukuyama, se tornar best-seller. Fukuyama previu que o fim da União Soviética abriria caminho para o triunfo da liberaldemocracia no mundo - idéia que desmoronou numa manhã ensolarada de setembro de 2001.
'Somos sempre suscetíveis à ilusão de que esses problemas não são nossos', diz Lear. 'O fim da História foi uma esperança de que a dinâmica do conflito humano tivesse acabado.' O que Freud tem a dizer, e que vale ser ouvido mesmo que a análise nunca mais cure outro paciente, é que a História nunca vai acabar. Porque é feita por seres humanos

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