Freud não está mortoO divã está em baixa, mas a cultura da psicanálise ainda nos envolve e a Ciência volta a considerar algumas de suas teorias. Por que Freud, o médico mais atacado da História, ainda nos cativa? SIGMUND FREUDO criador da psicanálise morreu em 1939, mas continua alimentando filmes, livros e infindáveis discussões sobre repressão, inconsciente e complexo de Édipo
Estamos num momento crítico na história de nossa civilização: assediados por inimigos que buscam irracionalmente a morte e nos arrastam com eles, nosso destino está nas mãos de líderes que julgam ser uma virtude evitar a reflexão, nossa cultura está tomada por charlatães que não são nem de longe tão depravados quanto fingem ser em seus best-sellers. Se por um momento desviamos o olhar do autor que choraminga na TV, nosso olhar capta uma figura familiar nas sombras, sardônica e grave, com o cenho franzido. Ela parece dizer: 'Você gostaria que fosse fácil. Você quer enfiar a cabeça em uma máquina, tomar um comprimido, fazer uma confissão na televisão e estar curado antes do último comercial. Mas você nem sabe qual é a sua doença'.
Sim, é Sigmund Freud, ainda nos assombrando muito tempo depois de sua morte, em Londres, em 1939. O teórico que explorou um terreno vasto e novo da mente: o inconsciente, a incômoda masmorra de memórias dolorosas clamando para ser ouvidas e que, de vez em quando, escapam para o consciente por meio de sonhos, lapsos da língua e doenças mentais. O filósofo que identificou as experiências da infância - e não um determinante racial ou familiar - como marco inicial da personalidade. O terapeuta que inventou a psicanálise, desenvolveu a noção revolucionária de que doenças diagnosticáveis reais podem ser curadas por um método que data dos primórdios da civilização: falar. Não pela oração, por sacrifícios ou exorcismo. Não por remédios, cirurgias ou mudanças na alimentação, mas pela recordação e reflexão na presença de um profissional. Uma idéia que vai totalmente contra nosso temperamento tecnológico, mas que nem as montanhas de Prozac receitadas todo ano conseguem enterrar. Não são muitos os pacientes que ainda buscam a cura no divã do terapeuta quatro vezes por semana. Mas a proliferação de terapias que se baseiam na fala atesta o poder duradouro dessa idéia.
Freud, fonte contínua de assunto, que moveu rodas de conversa por um século. Sem Freud, Woody Allen seria insignificante. Haveria Édipo, mas não um complexo de Édipo. Como, então, as pessoas poderiam explicar em jantares por que o filho mais velho de George Bush estava tão decidido a derrubar Saddam? (Esse é um jogo de salão cujo pioneiro foi o próprio Freud, em sua análise sobre Napoleão, quando concluiu que a rivalidade com seu irmão mais velho, Joseph, fora a principal motivação de sua vida, explicando tanto sua paixão por uma mulher chamada Josephine como sua decisão de seguir os passos do José bíblico, invadindo o Egito.)
Nos EUA, Freud geralmente é levado mais a sério como figura literária que científica, ao menos fora dos 40 institutos que treinam psicanalistas. No ano passado, a revista Newsweek juntou, indiscriminadamente, Freud a Karl Marx como filósofo limitado a seu século, em contraposição à relevância intelectual contínua de Darwin. Por isso, num ato de expiação, e para fazer frente ao tsunami de palestras, seminários e publicações previstos para seu aniversário de 150 anos, no dia 6 de maio, a revista perguntou: Freud ainda está morto? Se não, o que o mantém vivo?
20% dos americanos já fizeram terapia. Apenas 4% continuam fazendo
É notável que ele ainda esteja vivo de alguma forma. Digitar seu nome num site de busca desencadeia uma torrente de denúncias que se iniciaram no momento em que ele começou a publicar seu trabalho, no século XIX. Apenas estar errado - como até seus partidários admitem que ele estava sobre muitas coisas - parece insuficiente para explicar as calúnias que motivou. Os freudianos invocam uma explicação freudiana. 'O inconsciente é terrivelmente ameaçador', diz Glen Gabbard, professsor de Psiquiatria do Baylor College of Medicine. 'Sugere que somos movidos por uma força que não podemos ver ou controlar, e isso fere profundamente nosso narcisismo.' A resistência da burguesia, horrorizada com um dos princípios básicos de Freud, que atribui às crianças uma vida de fantasia sexual, foi imediata. Não foi só a cultura ocidental que Freud escandalizou. O xeque Nayef Rajoub, do Hamas, explicou a necessidade de destruir Israel porque 'Freud, um judeu, foi quem destruiu a moral'.
A oposição veio também das feministas, que fazem questão de afirmar que não invejam o pênis de homem nenhum. É de conhecimento geral que as idéias de Freud sobre a sexualidade feminina - resumindo, que elas são homens incompletos - estavam tão erradas que, como seu insuspeito biógrafo Peter Gay afirma, 'se ele fosse reitor de Harvard, teria de renunciar' (em referência à renúncia do reitor Larry Summers depois de ter proferido um comentário considerado machista). O ponto mais baixo da reputação de Freud foi no início dos anos 90, quando mulheres apareciam em talk shows com relatos de abuso sexual infantil resgatados do inconsciente. A situação foi um impasse. Freud, é preciso admitir, deu munição para os dois lados da questão. Do lado dos pais e irmãos acusados, culparam-no por ter semeado a idéia de que a memória reprimida de um abuso era a causa de muitas neuroses adultas. Quem acreditou nos acusadores condenou-o por ter se rendido à pressão da comunidade, ao sugerir que muitas dessas memórias eram na verdade fantasias da infância. 'Mandar uma mulher para um terapeuta freudiano', disse na época a feminista Gloria Steinem, 'não é muito diferente de mandar um judeu para um nazista.'
A reputação de Freud mal começou a se recuperar. Depois da guerra sobre a memória reprimida, o vasto arquivo sobre Freud na Biblioteca do Congresso Americano foi aberto para os estudiosos. Os detratores encontram muitas coisas que confirmam o que diziam o tempo todo: que suas 'curas' eram produto do desejo de que tivessem dado certo ou de manipulação consciente, e que suas teorias se baseavam em um ralo de lógica circular. Esforços para validar a psicologia freudiana por meio de testes ou exames cerebrais, usando tecnologia por imagem, ainda estão no começo (leia a entrevista abaixo). 'Acho que ele não vai resistir', diz Peter D. Kramer, psiquiatra e autor do livro Ouvindo o Prozac. Kramer, que está escrevendo uma biografia de Freud com lançamento previsto para o ano que vem, afirma: 'Dizer isso é quase uma traição pessoal, mas cada um dos elementos está errado: a universalidade do complexo de Édipo, a inveja do pênis, a sexualidade infantil'.
Quantos golpes Freud pode agüentar? Jonathan Lear, psiquiatra e filósofo da Universidade de Chicago, identifica uma 'idéia central' sobre a qual a reputação de Freud repousa: que a vida humana é 'essencialmente conflituosa' e que o conflito fica escondido de nós porque se origina de desejos e instintos reprimidos porque nosso eu consciente não suporta reconhecê-los. Identificar e resolver esses conflitos seria função da análise. Todo o resto é, no final, negociável. Nem os seguidores mais ortodoxos de Freud defendem seu trabalho em todos os detalhes. 'Ele estava errado sobre muitas coisas', diz James Hansell, psicólogo da Universidade de Chicago. 'Mas errado de uma forma interessante. Foi o pioneiro de uma forma completamente nova de ver as coisas.'

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