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Ethevaldo Siqueira


Ethevaldo Siqueira
Ethevaldo Siqueira descreveu com clareza e precisão sucessivas revoluções tecnológicas. Muitas delas ele antecipou para seus leitores. Aos 72 anos, continua um arguto caçador de tendências no campo das inovações, como mostra no livro 2015 – Como Viveremos. Na semana passada, conversou com o repórter Carlos Rydlewski.
O QUE MAIS O FASCINA NO MUNDO DA TECNOLOGIA?A rapidez e a intensidade das mudanças. Hoje, o meu computador pessoal tem capacidade de processamento dez vezes maior que a dos computadores usados pela Nasa, em 1969, para lançar a Apolo 11, uma missão tripulada à Lua. É inacreditável.
QUAL O MAIOR SALTO TECNOLÓGICO QUE O SENHOR TESTEMUNHOU?Foi o início da era digital em substituição à analógica, na segunda metade do século XX. Essa mudança permitiu que, sem exagero, o mundo pudesse caber no computador. Com a digitalização, imagens, músicas, gráficos e até bate-papos telefônicos se tornaram compatíveis com a linguagem dos computadores. Nicholas Negroponte, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), disse que foi aí que passamos do mundo dos átomos para o mundo dos bits.
QUAL FOI A INOVAÇÃO MAIS ARREBATADORA?A internet. Em 1990, era usada em vinte países por 35 000 pessoas. No fim da década, atingia 226 países e 560 milhões de pessoas. Hoje, tem 1,5 bilhão de usuários. Nada se expandiu de maneira tão avassaladora, rápida e dominante.
QUAL A PRINCIPAL ALAVANCA DAS TRANSFORMAÇÕES NA ERA DIGITAL?O transistor, de 1947, está para as conquistas modernas assim como a bússola e o astrolábio estiveram para as grandes navegações. A tecnologia só produziu esse pacote revolucionário, com impactos econômico, social e cultural, por ter criado ferramentas rápidas, pequenas e cada vez mais baratas. O transistor é a base de tudo por ter combinado estes três elementos: rapidez, miniaturização e economia.
O SENHOR TORNOU-SE DEPENDENTE DE ALGUM DOS NOVOS APARELHOS?O celular. Tive 54 celulares em doze anos. Eles são a síntese de um aspecto vital do sucesso dos eletrônicos: cada vez mais recursos a preços mais baixos. Hoje, dos 65 milhões de aparelhos existentes no Brasil, 80% estão nas mãos das classes C, D e E. Isso é democracia.
POR QUE PREVER COMO SE VIVERÁ NO ANO DE 2015, E NÃO NO ANO 2020 OU 2100?O futuro nos encanta, mas os cientistas não se arriscam a falar com segurança sobre um horizonte maior que dez anos. Em vinte anos, podem surgir tecnologias hoje imprevisíveis que mudariam a face do que conhecemos.
QUAL A SUA ESTRATÉGIA PARA ESPIAR O FUTURO?Certa vez, Pelé explicou seu segredo: "Corro para onde a bola vai estar", disse. O que fiz foi entrevistar 350 pessoas para saber onde a bola estará.
QUAL O PERSONAGEM MAIS INTERESSANTE?Sempre achei especial o Arthur C. Clarke (autor de 2001 – Uma Odisséia no Espaço). Eu o conheci em 1979 e houve uma forte empatia. É um gênio como cientista e como escritor.
ONDE AS TRANSFORMAÇÕES TECNOLÓGICAS SERÃO MAIS SENTIDAS?Na casa das pessoas. As casas são as "cavernas high-tech". A individualidade e o isolamento das pessoas nas suas casas definem um nicho. Já está em testes um home theater com doze canais. É possível ouvir um instrumento por canal. Ou seja, reproduzir doze instrumentos separados, como uma orquestra de câmara. Em cinco anos, graças à queda dos preços, os home theaters devem se popularizar.
O SENHOR FOI UM DOS POUCOS A DESAFINAR O CORO DOS QUE DEFENDIAM A RESERVA DE MERCADO NA INFORMÁTICA. POR QUÊ?E fui massacrado por isso. A reserva aglutinava todos: militares, comunistas e intelectuais. Mas era uma besteira. Lá fora os equipamentos eram bons e baratos. Aqui, eram porcarias. E caras. Prevalecia a ideologia. Eu pensava no consumidor. Hoje, o Brasil ainda tem de se cuidar. É preciso integrar-se ainda mais ao mundo das tecnologias da informação e da comunicação. Nos próximos dez anos, elas continuarão provocando transformações mais intensas que as revoluções econômicas (agrária, comercial e industrial). Ai de quem perder esse trem. O abismo entre os incluídos e os excluídos será imenso. Talvez intransponível