Os Picoles de chuchi

Os picolés de chuchu culturais
Como na política, o mundo dasartes e do entretenimento está cheiode figuras eficientes, mas insossas....
Marisa, Barreto, Samuel, Groisman e Sarney (a partir da esq.): o povo consome chuchu
A expressão "picolé de chuchu" é usada na política brasileira para designar governantes que se destacam pelo pragmatismo, pela competência – e pela falta de sal. Ela foi criada pelo colunista José Simão, do jornal Folha de S.Paulo, para referir-se a um ícone da categoria, o governador paulista Geraldo Alckmin. Mas não há motivo para restringir o uso da expressão à política. Há uma brigada numerosa de picolés de chuchu na cultura nacional: são músicos que não saem das paradas, cineastas que produzem filmes campeões de bilheteria, apresentadores de televisão com bons índices no Ibope e escritores que freqüentam as listas de best-sellers – todos sem sabor algum. Para os políticos, ser picolé de chuchu é positivo. Como são figuras bem-vindas por trazer mais racionalidade e menos pirotecnia à gestão pública, a falta de sabor é apenas um detalhe. Na cultura, isso não é tão abonador. Nada mais melancólico que um artista insosso.
Os picolés de chuchu proliferam na música pop. São artistas que sabem jogar para a platéia. Eles emplacam hits nas rádios e lotam shows. Mas são comportados demais. Definitivamente, não se enquadram naquela velha tradição contestadora da música brasileira – uma tradição que pode ser muito irritante, mas não tem sabor de chuchu. Os principais expoentes da categoria são os mineiros do Skank. Liderado pelo cantor Samuel Rosa, que faz o gênero cara normal, o grupo estourou nos anos 90 com letras sobre futebol e belas garotas. Hoje, é campeão nas paradas de campainhas de celulares – o que diz tudo sobre o que é ser um picolé de chuchu.
Há variantes do estilo mais difíceis de detectar. A cantora Marisa Monte, por exemplo. Talvez ninguém mais que ela mostre o lado positivo do picolé de chuchu. Marisa é o máximo da eficiência na hora de cuidar dos negócios, e emplaca um sucesso atrás do outro. Seus discos são de bom gosto, seus clipes são de bom gosto, seus shows são de bom gosto – até mesmo sua discrição é de bom gosto. Quem a vê ao vivo, no entanto, percebe o lado insosso por trás da produção sempre apurada. Suas apresentações são estranhamente desapontadoras – os movimentos desajeitados, os discursos chatíssimos sobre um certo Gentileza, só põem em evidência o seu refinamento vazio. Além disso, Marisa está cada vez mais autocomplacente. Ela desperdiça seu talento vocal em bobagens do tipo Já Sei Namorar, que fez à frente dos Tribalistas. Uma vez, vá lá. Mas, se continuar nessa trilha, ela corre o risco de perder o sabor de vez.
A televisão é outro campo fértil para os picolés de chuchu. Um dos mais notórios vai ao ar nas madrugadas de sábado da Rede Globo. À frente do programa Altas Horas, Serginho Groisman é um apresentador tarimbado. O ibope de seu programa é bom para o horário e, apesar de cinqüentão, Groisman se entende com os jovens. Difícil é imaginá-lo segurando a peteca num horário que exija mais calor e animação, como as tardes de domingo na TV. Gugu Liberato e Faustão são apelativos e estridentes – uns chatos, enfim. Mas não são picolés de chuchu. A televisão é, ainda, um celeiro de atores tão bonitos quanto sem graça. O casal Giovanna Antonelli e Murilo Benício compõe uma espécie de sorvetão de chuchu em embalagem de 2 litros. Mas há muitos outros nessa galeria: Alinne Moraes, Bruno Gagliasso, Carolina Dieckmann, e por aí afora.
O cineasta Bruno Barreto é um exemplo do poder de sedução que os picolés de chuchu podem exercer. Ele dirigiu Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), até hoje o filme recordista de bilheteria no país. Desde então, fez carreira em Hollywood e tem sido competente na hora de conseguir dinheiro e atores famosos para suas produções. A mais recente delas, Voando Alto, teve participação de uma ganhadora do Oscar, a atriz Gwyneth Paltrow – e é também uma amostra de como seu cinema se tornou anódino. Isso, apesar de Barreto ser um diretor que acalenta pretensões autorais.
O marasmo na literatura brasileira é tão grande que até os picolés de chuchu estão em falta. Mas isso não quer dizer que o estilo não tenha raízes antigas nessa área. Mesmo um poeta celebrado como Carlos Drummond de Andrade enveredou por essa trilha. Até a velhice, produziu copiosamente. Mas deixou a coloquialidade, uma marca registrada de seus versos e crônicas, deslizar mansamente para a banalidade. Como figura pública, Drummond evitava polêmicas e endossava com elogios a má poesia escrita à sua volta, como notou certa vez o crítico Mário Faustino. Tornou-se desprovido de acidez – um traço característico dos picolés de chuchu culturais. Para encontrar um picolé desse tipo na literatura de hoje, deve-se seguir o endereço da Academia Brasileira de Letras. O caso do senador e imortal José Sarney é emblemático. O ex-presidente não faz esse estilo na política. Na literatura, contudo, é um exemplo rematado. O realismo fantástico que esgrime em obras como Saraminda é tão placidamente sensabor que o credencia à categoria. Apesar disso, Sarney tem êxito editorial. O povo consome chuchu.

1 Comments:
Caro amigo..
Obrigada pela visitinha e comentátio no meu "Leitura dinâmica". Alías, o seu "leitura" está bem mais dinâmico do que o meu (hehehe). Super-profissa!!! Parabéns! Muito legal!
Quando o meu leitura crescer, ele vai ser igual ao seu, pode? (brincadeira amigo!)
m abraç0
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