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Os Picoles de chuchi


Os picolés de chuchu culturais
Como na política, o mundo dasartes e do entretenimento está cheiode figuras eficientes, mas insossas....
Marisa, Barreto, Samuel, Groisman e Sarney (a partir da esq.): o povo consome chuchu
A expressão "picolé de chuchu" é usada na política brasileira para designar governantes que se destacam pelo pragmatismo, pela competência – e pela falta de sal. Ela foi criada pelo colunista José Simão, do jornal Folha de S.Paulo, para referir-se a um ícone da categoria, o governador paulista Geraldo Alckmin. Mas não há motivo para restringir o uso da expressão à política. Há uma brigada numerosa de picolés de chuchu na cultura nacional: são músicos que não saem das paradas, cineastas que produzem filmes campeões de bilheteria, apresentadores de televisão com bons índices no Ibope e escritores que freqüentam as listas de best-sellers – todos sem sabor algum. Para os políticos, ser picolé de chuchu é positivo. Como são figuras bem-vindas por trazer mais racionalidade e menos pirotecnia à gestão pública, a falta de sabor é apenas um detalhe. Na cultura, isso não é tão abonador. Nada mais melancólico que um artista insosso.
Os picolés de chuchu proliferam na música pop. São artistas que sabem jogar para a platéia. Eles emplacam hits nas rádios e lotam shows. Mas são comportados demais. Definitivamente, não se enquadram naquela velha tradição contestadora da música brasileira – uma tradição que pode ser muito irritante, mas não tem sabor de chuchu. Os principais expoentes da categoria são os mineiros do Skank. Liderado pelo cantor Samuel Rosa, que faz o gênero cara normal, o grupo estourou nos anos 90 com letras sobre futebol e belas garotas. Hoje, é campeão nas paradas de campainhas de celulares – o que diz tudo sobre o que é ser um picolé de chuchu.
Há variantes do estilo mais difíceis de detectar. A cantora Marisa Monte, por exemplo. Talvez ninguém mais que ela mostre o lado positivo do picolé de chuchu. Marisa é o máximo da eficiência na hora de cuidar dos negócios, e emplaca um sucesso atrás do outro. Seus discos são de bom gosto, seus clipes são de bom gosto, seus shows são de bom gosto – até mesmo sua discrição é de bom gosto. Quem a vê ao vivo, no entanto, percebe o lado insosso por trás da produção sempre apurada. Suas apresentações são estranhamente desapontadoras – os movimentos desajeitados, os discursos chatíssimos sobre um certo Gentileza, só põem em evidência o seu refinamento vazio. Além disso, Marisa está cada vez mais autocomplacente. Ela desperdiça seu talento vocal em bobagens do tipo Já Sei Namorar, que fez à frente dos Tribalistas. Uma vez, vá lá. Mas, se continuar nessa trilha, ela corre o risco de perder o sabor de vez.
A televisão é outro campo fértil para os picolés de chuchu. Um dos mais notórios vai ao ar nas madrugadas de sábado da Rede Globo. À frente do programa Altas Horas, Serginho Groisman é um apresentador tarimbado. O ibope de seu programa é bom para o horário e, apesar de cinqüentão, Groisman se entende com os jovens. Difícil é imaginá-lo segurando a peteca num horário que exija mais calor e animação, como as tardes de domingo na TV. Gugu Liberato e Faustão são apelativos e estridentes – uns chatos, enfim. Mas não são picolés de chuchu. A televisão é, ainda, um celeiro de atores tão bonitos quanto sem graça. O casal Giovanna Antonelli e Murilo Benício compõe uma espécie de sorvetão de chuchu em embalagem de 2 litros. Mas há muitos outros nessa galeria: Alinne Moraes, Bruno Gagliasso, Carolina Dieckmann, e por aí afora.
O cineasta Bruno Barreto é um exemplo do poder de sedução que os picolés de chuchu podem exercer. Ele dirigiu Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), até hoje o filme recordista de bilheteria no país. Desde então, fez carreira em Hollywood e tem sido competente na hora de conseguir dinheiro e atores famosos para suas produções. A mais recente delas, Voando Alto, teve participação de uma ganhadora do Oscar, a atriz Gwyneth Paltrow – e é também uma amostra de como seu cinema se tornou anódino. Isso, apesar de Barreto ser um diretor que acalenta pretensões autorais.
O marasmo na literatura brasileira é tão grande que até os picolés de chuchu estão em falta. Mas isso não quer dizer que o estilo não tenha raízes antigas nessa área. Mesmo um poeta celebrado como Carlos Drummond de Andrade enveredou por essa trilha. Até a velhice, produziu copiosamente. Mas deixou a coloquialidade, uma marca registrada de seus versos e crônicas, deslizar mansamente para a banalidade. Como figura pública, Drummond evitava polêmicas e endossava com elogios a má poesia escrita à sua volta, como notou certa vez o crítico Mário Faustino. Tornou-se desprovido de acidez – um traço característico dos picolés de chuchu culturais. Para encontrar um picolé desse tipo na literatura de hoje, deve-se seguir o endereço da Academia Brasileira de Letras. O caso do senador e imortal José Sarney é emblemático. O ex-presidente não faz esse estilo na política. Na literatura, contudo, é um exemplo rematado. O realismo fantástico que esgrime em obras como Saraminda é tão placidamente sensabor que o credencia à categoria. Apesar disso, Sarney tem êxito editorial. O povo consome chuchu.

Ethevaldo Siqueira


Ethevaldo Siqueira
Ethevaldo Siqueira descreveu com clareza e precisão sucessivas revoluções tecnológicas. Muitas delas ele antecipou para seus leitores. Aos 72 anos, continua um arguto caçador de tendências no campo das inovações, como mostra no livro 2015 – Como Viveremos. Na semana passada, conversou com o repórter Carlos Rydlewski.
O QUE MAIS O FASCINA NO MUNDO DA TECNOLOGIA?A rapidez e a intensidade das mudanças. Hoje, o meu computador pessoal tem capacidade de processamento dez vezes maior que a dos computadores usados pela Nasa, em 1969, para lançar a Apolo 11, uma missão tripulada à Lua. É inacreditável.
QUAL O MAIOR SALTO TECNOLÓGICO QUE O SENHOR TESTEMUNHOU?Foi o início da era digital em substituição à analógica, na segunda metade do século XX. Essa mudança permitiu que, sem exagero, o mundo pudesse caber no computador. Com a digitalização, imagens, músicas, gráficos e até bate-papos telefônicos se tornaram compatíveis com a linguagem dos computadores. Nicholas Negroponte, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), disse que foi aí que passamos do mundo dos átomos para o mundo dos bits.
QUAL FOI A INOVAÇÃO MAIS ARREBATADORA?A internet. Em 1990, era usada em vinte países por 35 000 pessoas. No fim da década, atingia 226 países e 560 milhões de pessoas. Hoje, tem 1,5 bilhão de usuários. Nada se expandiu de maneira tão avassaladora, rápida e dominante.
QUAL A PRINCIPAL ALAVANCA DAS TRANSFORMAÇÕES NA ERA DIGITAL?O transistor, de 1947, está para as conquistas modernas assim como a bússola e o astrolábio estiveram para as grandes navegações. A tecnologia só produziu esse pacote revolucionário, com impactos econômico, social e cultural, por ter criado ferramentas rápidas, pequenas e cada vez mais baratas. O transistor é a base de tudo por ter combinado estes três elementos: rapidez, miniaturização e economia.
O SENHOR TORNOU-SE DEPENDENTE DE ALGUM DOS NOVOS APARELHOS?O celular. Tive 54 celulares em doze anos. Eles são a síntese de um aspecto vital do sucesso dos eletrônicos: cada vez mais recursos a preços mais baixos. Hoje, dos 65 milhões de aparelhos existentes no Brasil, 80% estão nas mãos das classes C, D e E. Isso é democracia.
POR QUE PREVER COMO SE VIVERÁ NO ANO DE 2015, E NÃO NO ANO 2020 OU 2100?O futuro nos encanta, mas os cientistas não se arriscam a falar com segurança sobre um horizonte maior que dez anos. Em vinte anos, podem surgir tecnologias hoje imprevisíveis que mudariam a face do que conhecemos.
QUAL A SUA ESTRATÉGIA PARA ESPIAR O FUTURO?Certa vez, Pelé explicou seu segredo: "Corro para onde a bola vai estar", disse. O que fiz foi entrevistar 350 pessoas para saber onde a bola estará.
QUAL O PERSONAGEM MAIS INTERESSANTE?Sempre achei especial o Arthur C. Clarke (autor de 2001 – Uma Odisséia no Espaço). Eu o conheci em 1979 e houve uma forte empatia. É um gênio como cientista e como escritor.
ONDE AS TRANSFORMAÇÕES TECNOLÓGICAS SERÃO MAIS SENTIDAS?Na casa das pessoas. As casas são as "cavernas high-tech". A individualidade e o isolamento das pessoas nas suas casas definem um nicho. Já está em testes um home theater com doze canais. É possível ouvir um instrumento por canal. Ou seja, reproduzir doze instrumentos separados, como uma orquestra de câmara. Em cinco anos, graças à queda dos preços, os home theaters devem se popularizar.
O SENHOR FOI UM DOS POUCOS A DESAFINAR O CORO DOS QUE DEFENDIAM A RESERVA DE MERCADO NA INFORMÁTICA. POR QUÊ?E fui massacrado por isso. A reserva aglutinava todos: militares, comunistas e intelectuais. Mas era uma besteira. Lá fora os equipamentos eram bons e baratos. Aqui, eram porcarias. E caras. Prevalecia a ideologia. Eu pensava no consumidor. Hoje, o Brasil ainda tem de se cuidar. É preciso integrar-se ainda mais ao mundo das tecnologias da informação e da comunicação. Nos próximos dez anos, elas continuarão provocando transformações mais intensas que as revoluções econômicas (agrária, comercial e industrial). Ai de quem perder esse trem. O abismo entre os incluídos e os excluídos será imenso. Talvez intransponível

fora estes falsos



Pagos para elogiar
Como orelhas, introduções e prefáciosservem ao compadrio literário... Luis Fernando Verissimo
Obras que elogiou: Era uma Vez FH, de Chico Caruso, Figurino – Uma Experiência na Televisão, de Lisette Guerra e Adriana Leite, A Engenhosa Letícia do Pontal, de Carlos Nejar, A Noite dos Cabarés, de Juremir Machado da Silva.
"Juremir reúne na mesma cabeça, e no mesmo estilo, a diligência do repórter, a curiosidade do antropólogo e a acuidade do observador cultural."



Um livro só merece uma introdução, afirmou o poeta americano T.S. Eliot, quando tem qualidade suficiente para dispensar introduções. Essa é uma lição que raros escritores brasileiros absorveram. Longe de serem acessórios dispensáveis a um bom livro, introduções ou orelhas assinadas são com freqüência moeda de troca do compadrio literário. O autor do elogio confirma seu prestígio cultural e ainda ganha um troco das editoras. O escritor elogiado recebe um empurrãozinho na carreira. Só perde o leitor ingênuo, que acredita no aval dos medalhões literários. Luis Fernando Verissimo, um dos escritores brasileiros mais requisitados para prefácios e orelhas, define bem o desafio dessa atividade: "A única arte, ou dificuldade, é escrever algo favorável sobre um trabalho que não entusiasma sem parecer condescendente ou falso. Em geral, isso é feito para ajudar alguém que está começando."
Como gênero literário, a introdução (ou prólogo, ou prefácio) tem lá sua dignidade. Samuel Johnson, o grande crítico inglês do século XVIII, reuniu uma série de prólogos em um livro que se tornaria clássico, Vidas dos Poetas Ingleses. Já no século passado, o filósofo francês Jean-Paul Sartre também se arriscou nessa seara. Seu Saint Genet deveria ser uma introdução às obras do dramaturgo-ladrão Jean Genet, mas a prolixidade de Sartre extrapolou todas as medidas: com quase 600 páginas, o prefácio virou livro independente. Mais conciso, o argentino Jorge Luis Borges era autor de prólogos primorosos.
A orelha tem menos tradição, até por ser uma invenção mais recente da indústria editorial (no Brasil, disseminou-se a partir dos anos 1940). A praxe é que a orelha não traga assinatura, mas volta e meia um figurão concede seu nome para esses textinhos. Nos Estados Unidos, Stephen King, o rei do horror barato, encontrou uma vocação paralela escrevendo elogios de orelha para autores menos célebres. No Brasil, Jorge Amado era conhecido pela prodigalidade dos elogios que distribuía em orelhas e prefácios. Hoje, entre os nomes mais costumeiros nesses textos estão Verissimo, Carlos Heitor Cony, Ruy Castro e Zuenir Ventura. As editoras pagam entre 500 e 1.500 reais por uma orelha ou prefácio. A motivação atrás do elogio, porém, não é só financeira: o que interessa é dar aquela força para os amigos. Às vezes, é claro, o feitiço vira contra o feiticeiro: em 1991, Verissimo assinou a orelha de A Noite dos Cabarés, do jornalista Juremir Machado da Silva, hoje seu inimigo jurado – os dois brigaram depois de Juremir ter questionado, em sua coluna no jornal Zero Hora, a coragem política do pai de Luis Fernando, o escritor Erico Verissimo, durante a ditadura militar.
Carlos Heitor Cony
Obras que elogiou: A Porta, de Heloisa Seixas, Entre Ossos e a Escrita, de Maitê Proença, A Dor de Cada Um, de Antonio Olinto, Amizade sem Fim, de Renato Aragão.
"Como admirador do homem Renato Aragão, desejo saudá-lo como escritor, certo estou de que Amizade sem Fim pode figurar com mérito e dignidade na prateleira nobre da literatura brasileira." Um exemplo extremo de compadrio é a coleção Anjos de Branco, série de livros patrocinada pelo Conselho Federal de Enfermagem para inflar a notoriedade literária da categoria. Os imortais da Academia Brasileira de Letras estão entre os mais entusiasmados participantes. Antonio Olinto e Arnaldo Niskier, não contentes em figurar como autores da série, também já fizeram prefácios e orelhas para os colegas. Carlos Heitor Cony ainda não escreveu seu livro para a coleção, mas já deu sua inestimável colaboração elogiando as obras de Antonio Olinto e Renato Aragão (ele mesmo: o Didi, de Os Trapalhões). Em uma crônica publicada há alguns anos, Cony conta que certa vez estava escrevendo um prefácio para o livro de um amigo quando perdeu o texto por causa de um problema no computador. Como o livro era ruim, decidiu que não escreveria mais o prefácio. Um bom vírus teria salvado Cony de algumas páginas constrangedoras. Mais importante, teria poupado o leitor de muita enganação.


O motor do Mundo

Por Gabriela Carelli
O motor do mundo
O historiador inglês defende
que a criatividade é hoje a arma
mais poderosa para o progresso
das nações

O inglês Paul Johnson é um dos mais produtivos historiadores da atualidade. Em seus mais de quarenta livros publicados, já se debruçou sobre grandes temas como a história das religiões e do século XX. Observador arguto da cena internacional, provoca polêmica nos artigos que escreve para as revistas Forbes e The Spectator pelo entusiasmo com que fustiga as esquerdas com sua verve franca e elegante. Aos 77 anos, Johnson acaba de lançar mais um livro, Os Criadores, um mergulho na vida de dezessete personalidades criativas da história, de Shakespeare a Walt Disney. O objetivo da obra, a segunda de uma trilogia iniciada com Os Intelectuais, em 1988, e que terminará com a publicação em breve de Os Heróis, é tentar entender o que ele considera a característica mais importante do homem, a criatividade. "Só a criatividade pode garantir o progresso. O problema é que o homem tem uma propensão negativa a encontrar razões científicas ou morais para frear a criatividade, seja na economia, na política ou nas artes", diz Johnson nesta entrevista a VEJA.
Veja – O senhor escreveu que o desenvolvimento social e tecnológico humano não avançou tanto quanto poderia por causa da eterna batalha entre duas forças antagônicas do homem: sua criatividade e sua capacidade de crítica e destruição. Como assim?
Johnson – Os seres humanos são naturalmente criativos. Amam criar. Também são apaixonados pela destruição e pela crítica. Acredito que todas as artes – sendo que considero formas de arte a política, o desenvolvimento tecnológico, econômico e social, assim como a pintura e a literatura – necessitam dessas duas forças antagônicas. É a tese, a antítese e a síntese. Mas é vital que a criatividade, a tese, supere seu adversário e vença, pois só ela pode garantir o progresso. Não tenho dúvida de que, se houvesse apenas a criatividade, a humanidade teria avançado muito mais rapidamente.
Veja – O senhor poderia citar exemplos de forças destrutivas que impediram um avanço maior da nossa civilização?
Johnson – O exemplo mais primário disso é o marxismo. Marx compreendeu mal o capitalismo, foi desonesto com as evidências e sua contribuição para o mundo foi totalmente negativa. Graças a ele e a outros pensadores, por mais de um século muitos países perderam a chance de crescer economicamente. Seus povos deixaram de ter acesso à informação e à liberdade, fundamentais para o processo criativo, milhares de pessoas foram mortas injustamente e muito dinheiro foi jogado fora em vez de ser usado para a melhoria da qualidade de vida. Não há absolutamente nada a dizer em favor do marxismo.
Veja – O senhor afirma que o homem é propenso a encontrar razões científicas ou morais para frear a criatividade. O que o leva a agir dessa forma?
Johnson – O medo. Esse é, com certeza, o maior estimulador do atraso. É o medo, por exemplo, que impede muitos países de usar energia nuclear de forma consciente em substituição a outras fontes de energia. Por causa de pretensos defensores da humanidade, impediu-se a construção de usinas nucleares nos Estados Unidos e na Inglaterra. Se bem usada, essa energia poderia minimizar os impactos energéticos do crescimento econômico da China e da Índia, que provocaram escassez de petróleo.
Veja – Os chineses e os indianos são, hoje, mais criativos do que os americanos?
Johnson – Até agora, os chineses e os indianos meramente irritaram os americanos. Eles conseguem produzir novas idéias? Até o momento, nada provou que eles sejam capazes de inovar. Apenas avançaram em espaços já existentes. A China fez isso com sua indústria pesada, formada por fábricas ultrapassadas que produzem produtos baratos para exportação e garantem retorno rápido. A Índia, por sua vez, arranhou os Estados Unidos com um bem-sucedido comércio intercontinental de comunicação via call centers. Se a China e a Índia não produzirem novas idéias além dessas, vão estagnar, como o Japão.
Veja – Qual dos dois países tem mais chance de ser bem-sucedido em termos de crescimento?
Johnson – A Índia, porque é um país onde existe liberdade. Novas idéias somente emergem onde as pessoas são livres para pensar. Além disso, a Índia, apesar de ser uma sociedade de castas, tem uma elite fluente em inglês, o que permitiu ao país pular da era industrial para uma era de comunicação avançada. Bangalore, a capital indiana da alta tecnologia, é uma cidade totalmente imersa no século XXI. A Índia parece bastante atrasada devido a suas tradições, muito preciosas, por sinal, mas está criando as bases para um futuro formidável. O clima de liberdade privilegia o país.
Veja – Se a liberdade privilegia a Índia, como se explica o crescimento acelerado da China?
Johnson – A China conseguiu se livrar do legado terrível do marxismo primitivo de Mao Tsé-tung, mas não será um competidor à altura da Índia enquanto não desmantelar por completo seu sistema comunista. O país ainda depende do trabalho escravo, assim como de camponeses mal remunerados recém-chegados às cidades. Não está investindo o suficiente em alta tecnologia, a não ser a militar, erro já cometido pelos soviéticos. A China tem de substituir sua elite comunista por uma sociedade inovadora, com o seu próprio dinamismo de idéias, ou entrará em colapso. Se funcionar, será a grande lição da era moderna.
Veja – Enquanto a Ásia cresce, a América Latina continua presa aos problemas econômicos e sociais de sempre. Qual a explicação?
Johnson – O problema da América Latina está na sua origem histórica. A forma como foi colonizada, destrutiva e negativa desde o princípio, repercute até hoje na desorganização política, econômica e social. Não há estabilidade, o que acaba diminuindo a liberdade. O Brasil, por exemplo, desde o descobrimento nunca teve uma elite criativa e pragmática comparável à geração de George Washington e Thomas Jefferson nos Estados Unidos, gente capaz de organizar o país e direcioná-lo. Uma solução para melhorar o que está estragado é investir na educação. A educação permite a liberdade de idéias e o progresso. Bons exemplos são Coréia do Sul, Taiwan e Cingapura.
Veja – Como o senhor definiria um homem criativo?
Johnson – É impossível definir criatividade, assim como não se define genialidade. O estudo dos grandes criadores revela dois fatos. O primeiro é que ninguém cria no vácuo. Todas as civilizações evoluem de sociedades anteriores. Também ninguém vira um grande criador por sorte. Todo ato criativo, mesmo quando ele surge num lampejo, é fruto de muito trabalho, estudo e conhecimento.
Veja – Quem o senhor apontaria como uma pessoa de extrema criatividade?
Johnson – William Shakespeare, sem dúvida nenhuma, é a pessoa mais criativa da história. Esse dramaturgo inglês do século XVI alcançou o entendimento da personalidade humana em todas as suas manifestações, da forma como o ser humano interage em todas as situações possíveis. Era dono de uma imaginação de altíssimo nível, bem como de uma habilidade com as palavras até hoje nunca igualada.
Veja – Ao falar sobre o próximo livro de sua trilogia, Os Heróis, o senhor disse que o Ocidente precisa urgentemente de pessoas com esse perfil. Por quê?
Johnson – Os heróis inspiram, motivam e, no mínimo, legitimam uma guerra que está sendo travada. Eles nos ajudam a distinguir o certo do errado e a compreender os méritos morais da nossa causa. Não existe ninguém hoje no Ocidente com esse perfil. Já o Oriente Médio tem seus heróis. Osama bin Laden, por exemplo. Por mais monstruoso que possa ser, ele encarna a figura do herói. É líder de milhares de muçulmanos, escapou do mais poderoso Exército do planeta e inspira centenas de seguidores. Faz parte de um grupo que convence jovens a se explodir por uma causa. Esses jovens, por sua vez, também se transformam em heróis aos olhos do mundo. São pessoas que tiram a própria vida para lutar contra os tanques israelenses. Isso faz com que muitos observadores da guerra ao terror se sensibilizem com a causa islâmica.
Veja – Quem o senhor citaria como herói do Ocidente?
Johnson – O último herói americano foi Ronald Reagan. Na Inglaterra, Margaret Thatcher. Na Igreja Católica, João Paulo II. Todos foram grandes líderes, com características de heróis. Provavelmente estarão em meu próximo livro.
Veja – Ronald Reagan?
Johnson – Sim. Muita bobagem foi escrita sobre ele. Reagan era um homem de pensamentos claros e determinado em seus objetivos. Tinha poucos méritos acadêmicos, mas era um orador de primeiríssima linha. Enfatizou a necessidade da democracia e dos direitos humanos. A história mostra que os melhores líderes políticos são exatamente assim. Têm poucas idéias, mas elas são muito bem executadas. Assim foram Winston Churchill, Charles de Gaulle e Margaret Thatcher.
Veja – O presidente Bush tem chance de ser visto como um herói?
Johnson – Bush é um bom administrador, com um forte poder de decisão. Mas tem uma imagem pública excepcionalmente ruim.
Veja – O senhor defendeu a invasão do Iraque em 2003. Os resultados desastrosos dessa guerra o fizeram mudar de opinião?
Johnson – Não encaro os resultados como desastrosos. Ao destruírem os regimes perversos do Afeganistão e do Iraque, prenderem seus líderes ou transformá-los em fugitivos, os Estados Unidos estão mandando uma mensagem importante para outros ditadores violentos e perigosos, como o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, que insiste no enriquecimento de urânio e, além de tudo, propaga mentiras anti-semitas.
Veja – Por que o presidente iraniano parece não temer os Estados Unidos?
Johnson – O presidente iraniano tem como modelo Adolf Hitler. O que aconteceu com Hitler? O perigo do avanço em programas nucleares e na produção de armas de destruição em massa em países do Oriente Médio existe e precisa ser combatido pelos americanos. Só os Estados Unidos podem conter o Irã, talvez com alguma ajuda da Inglaterra, caso Tony Blair permaneça como primeiro-ministro. O resto da Europa é totalmente inútil e dispensável.
Veja – A política externa dos Estados Unidos provocou o crescimento do antiamericanismo, principalmente na Europa. Como europeu, o que o senhor acha disso?
Johnson – Justamente por ser europeu, posso afirmar que o antiamericanismo na Europa meramente reflete a frustração e a fraqueza européias. A inveja da América tornou-se um aspecto importante da política externa européia, principalmente na França e na Alemanha. Os franceses acreditam que são uma nação culturalmente superior e que os Estados Unidos querem se impor na Europa. Acreditam que Bush e os americanos são ignorantes. A história mostra que não é assim. Os americanos são bons políticos e geopolíticos. A Constituição americana tem 200 anos. Nesse tempo, a França teve mais de uma dezena de Constituições, passou por monarquias, impérios e repúblicas. Não há dúvidas de que existe inveja de um lado do Atlântico, mas também existe o perigo de arrogância do outro. Essa inveja também tem fundamento na falência européia. A Europa vem apresentando um péssimo desempenho desde os anos 60 por causa do crescimento da burocracia, com altas taxas de desemprego e estagnação econômica. Os Estados Unidos, ao contrário, cresceram nos últimos 25 anos e continuam a crescer.
Veja – Não é natural que a opinião pública mundial se escandalize ao saber de abusos cometidos por militares em prisões no Iraque ou das condições extremas em que vivem os detidos na base de Guantánamo?
Johnson – Os Estados Unidos encabeçam uma guerra internacional contra a violência. Acabarão por vencê-la. A prisão de Guantánamo foi criada com base numa interpretação sem precedentes da lei militar por causa de uma ameaça sem precedentes. Apesar das críticas, o sistema de justiça de Guantánamo tem sido uma forma de dissuadir jovens muçulmanos que estavam decididos a tomar partido nessa guerra. Esses jovens não temem nem o martírio nem a morte, mas eles temem ficar trancados nessa prisão.
Veja – Em um artigo, o senhor escreveu que o homem tem uma capacidade enorme de arrumar problemas que inundam o mundo de ansiedade e que a atual preocupação com o meio ambiente é um exemplo disso. O senhor não teme o fim do mundo?
Johnson – Se eu temesse o fim do mundo, estaria me contrariando. Seria uma prova de que não acredito na força criativa. O Homo sapiens tem menos de 1 milhão de anos. A Revolução Industrial ocorreu há 250 anos. A bomba atômica existe há meio século. Os avanços têm acontecido de forma muito rápida, numa velocidade inimaginável. Mais de 100 milhões de pessoas morreram no século passado vítimas de regimes totalitários, mas não foi por isso que as populações deixaram de se expandir. Acreditar que o homem é incapaz de superar obstáculos, sejam eles naturais ou não, é esquecer todo esse progresso. A história prova o contrário: que temos habilidade e criatividade para vencer os desafios que nos são impostos. Temos de aproveitar as riquezas do nosso planeta e contar com a ajuda divina.
Veja – O senhor parece otimista com a realidade. Por que recorrer à ajuda divina?
Johnson – Ela é sempre necessária. Hoje, mais do que nunca.